- Thainara Mangolin

- 20 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de fev.
Por que o diagnóstico psiquiquátrico tradicional falha ao tentar compreender o autismo?
A resposta pode estar na forma como construímos essas categorias diagnósticas, que muitas vezes mais escondem do que revelam a verdadeira natureza do que chamamos de Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O diagnóstico como abstração histórica
Iniciamos este percurso, pelo caminho mais concreto: a discussão do diagnóstico do TEA. Porém, ao adotarmos uma perspectiva do materialismo histórico-dialético, percebemos algo crucial: o diagnóstico não é uma revelação da "verdadeira natureza" do autismo, mas sim um produto de condições históricas específicas.
Como Marx explicou, "o concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, a unidade do diverso". O diagnóstico do autismo é exatamente isso: uma síntese que resulta de múltiplas determinações históricas, sociais e científicas — não um ponto de partida neutro ou objetivo.
A psiquiatria e suas transformações paradigmáticas
A história da psiquiatria revela um movimento pendular constante: ora privilegiando explicações baseadas no meio ambiente (como o "tratamento moral"), ora priorizando a hereditariedade (teorias da degeneração). Esta última visão tem sido predominante, especialmente a partir do século XIX.
Um personagem fundamental nessa história é Emil Kraepelin, cuja influência levou a uma "grande virada biológica" na psiquiatria a partir da década de 1950. Os "neokrapelianos" americanos, junto com a indústria farmacêutica, desenvolveram uma psiquiatria essencialmente biologicista.
Essa transformação se refletiu no próprio DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), que a partir de sua terceira edição rompeu com as fundamentações psicanalíticas anteriores e adotou um modelo mais biológico. A associação direta entre diagnóstico e tratamento — herança kraepeliana — se fortaleceu: definir um diagnóstico psiquiátrico passou a ser o centro do tratamento.
O autismo em transformação
O autismo passou por várias redefinições ao longo do tempo: de sintoma da esquizofrenia, passando por característica do desenvolvimento humano, até chegar à concepção atual como condição patológica. Esse movimento acompanhou o mesmo pendular da psiquiatria: da explicação baseada no meio (falta de cuidados parentais) para a explicação estritamente genético-biológica.
A quinta edição do DSM representa o ápice desse reducionismo biológico: o desenvolvimento passa a ser sinônimo de neurodesenvolvimento, e os aspectos sociais são secundarizados.
Rompendo com as dicotomias
A Psicologia Histórico-Cultural, baseada no materialismo histórico-dialético, propõe uma ruptura com as velhas dicotomias que ainda dominam nosso pensamento: corpo versus mente, natureza versus cultura, inatismo versus desenvolvimento, biológico versus social.
Essa perspectiva nos convida a buscar unidades de análise que possam capturar a complexidade do fenômeno autista:
A unidade psicofísica: Reconhece a impossibilidade de separar aspectos psicológicos dos físicos. Mesmo que genética e processos cerebrais sejam nossa base biológica, os processos psicológicos superiores só ocorrem através de determinações histórico-sociais.
A unidade hereditariedade-meio: Rejeita a cisão simplista entre natureza e cultura. Quando nos apropriamos dos aspectos histórico-sociais, nossos processos biológicos não correspondem diretamente ao que herdamos filogeneticamente. Nos tornamos seres híbridos, onde o aprendido e o herdado se fundem.
O desenvolvimento humano como chave heurística: Esta é nossa terceira e mais importante unidade, que incorpora as anteriores. O desenvolvimento humano nos permite recuperar o que foi perdido na história da psiquiatria: a criança, o sujeito, o humano.
Por que essa mudança de perspectiva importa?
A literatura científica frequentemente atribui a heterogeneidade do autismo à própria condição: "o transtorno é diverso, complexo e multifacetado". Mas a perspectiva histórico-cultural propõe uma resposta diferente: a diferença entre sujeitos com a mesma condição não está no diagnóstico, mas nas próprias condições de vida desses sujeitos.
Nossa individuação não está nos genes, está na totalidade da vida. O diagnóstico, ao buscar semelhanças e estabelecer critérios gerais, acaba por escamotear o que é mais importante: a criança concreta, com sua história singular.
Conclusão: o diagnóstico do autismo como processo, não como produto
Um diagnóstico deve ser apenas o princípio, não o fim; deve ser processo, não produto. O desenvolvimento humano como chave heurística está no cerne da totalidade concreta e multifacetada do fenômeno do autismo.
Pelas leis do desenvolvimento cultural, todo ser que nasce em uma sociedade é candidato à humanização — mas essa humanização só ocorre se esse sujeito tiver acesso às condições objetivas de existência e à possibilidade de apropriação das determinações histórico-sociais.
Mesmo em condições orgânicas não favoráveis, os sujeitos inseridos em uma sociedade têm a possibilidade de se desenvolver, desde que encontrem vias alternativas para seu desenvolvimento. Esta dissertação busca lançar luz sobre a humanidade presente nos sujeitos diagnosticados com autismo — uma humanidade que os modelos reducionistas frequentemente esquecem.
O verdadeiro desafio não é classificar, mas compreender; não é diagnosticar, mas desenvolver.





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